ezra pound e o tênis

Pound é uma das figurinhas de selo literário das mais importantes. Engraçado, oras sério, porém em ambas as ocasiões, imprevisível. ABC da Literatura, pequeno manual de sua autoria destinado aos jovens com interesses em criação literária, é um livro essencial e que muito tem a contribuir. Não só por suas introduções a métrica, exercícios de composição e direcionamento de leituras, mas também, pela própria forma que Pound se expressa, que é divertidíssima, ácida e crítica quase sempre quando pode. É como uma conversa sincera, entre ele, suas verdades intocáveis e o pobre estudante leitor.

Em outras palavras, suas palavras, o livro, mas especificamente a lista de poemas escolhidos por ele como essenciais, são justamente o necessário que , em analogia, uma pessoa teria de saber para julgar os atletas com mais condições de enfrentar a Taça Davis.

Senhor Pound adora analogias.

Ezra contradiz aquela sempre em moda sentença que acredita que o poema brota. Assim, veio ao mundo, "do nada". Só se for do nada ao nada.

E agora mais outra analogia.

Sim, o poema pode brotar (cafonice aguda), porém, as melhores obras são aquelas nas quais esse tal brotamento acontece quando a técnica (chamada segunda natureza) ocorre instintivamente. Assim, como um jogador de tênis não precisa pensar em cada posição de seu músculo durante um movimento em meio a uma partida.

Em pequenas palavras, nada adianta um impulso divino se não se sabe segurar corretamente uma raquete.

Como esse livro era encomendado pelo seu editor para ser uma espécie de apostila escolar, esse tipo de tática educacional é válida e cumpre bem seu trabalho. Mas fico pensando na decisão de optar pelo jogo de tênis como ilustração, poderia ser qualquer outro esporte. Não saberia dizer como estava a fama do ping-pong nessa época, mas ao se tratar de poesia, se me permite sr. Pound, daria uma ideia. Naquela parte em que é tratada a máxima "grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o maior grau possível", você poderia adicionar algo como "pense na prosa como uma partida de tênis, já a poesia, uma pelada de ping-pong". Super-concentração e perspicácia com os mínimos e mais sutis movimentos.

Pensar em escrever como um jogo é um exercício que chama atenção. Contra quem se compete? Um editor resmunguento, um mercado comercial e fechado, contemporâneos descolados, ou mais psicologicamente falando, ó, o próprio escritor? O próprio e suas perturbações, endividamento financeiro em tantos manuais de leitura, romancistas e cursos de línguas estrangeiras, promessa aos amigos de terminar alguma espécie de obra, de provar aos pais que não se é um preguiçoso, derrotado e excelente cliente para as ciências clínicas da mente, o próprio e sua articulação de vontade mais dedicação e talento. De qualquer forma, imaginarei daqui para frente o rosto a ranger da russa Maria Sharapova como obstáculo, quando tentar escrever.

Mas o que sei. Sou apenas mais uma viciada em fanopéias as cunhando com pura falta de sucesso, muito longe de ser, pelo menos, uma beletrista.

Ah, se meus joelhos me deixassem, pelo menos, tentar o tênis.

Quando as gaiolas viram pássaros: o lirismo sombrio de Alejandra Pizarnik


Oxalá pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema com meu corpo, resgatando a cada frase com meus dias e com minhas semanas
Alejandra Pizarnik
Alejandra, mi bicho/vení a estas líneas, a este papel de arroz
dale abad a la zorra/ a este fieltro que juega con tu pelo
(Amabas, esas cosas nímias/ aboli bibelot d'inanité sonore
Julio Cortázar
Muito já se falou do teor surrealista dos poemas e da obra em geral da poetisa argentina Alejandra Pizarnik. Sabemos que essa durante quatro anos morou em Paris, por onde fez amigos com André Breton . Este, inspirado em Alfred Jarry, nos devaneios que levariam ao surgimento do Surrealismo, enxergou a capacidade que o humor possui para criar novos mundos e agulhar o existente. Pizernik, nasceu em um momento interessante da história da literatura. Amiga de nomes como Júlio Cortázar, Jorge Luís Borges, Silvana Ocampos e de seu marido Adolfo Bioy Casares, viveu em um tempo em que a sua cidade afirmava um novo gênero literário, as histórias fantásticas – o realismo mágico. E é claro, que absorvendo ambas influências, a sua escrita foi tomada por seus elementos, tal como a busca de novos mundos, limites, exageros, um certo deboche ao contemporâneo, um absurdo metafísica e explorações do homem subjetivo.



Pizarnik como, tantos outros, mira no cotidiano, sua autópsia e ressiginificação, para assim atingir o maravilhoso ou menos real. Sabemos que esses eram alguns dos elementos que permeavam o espaço-tempo na qual ela estava inserida. Porém, no intuito de expor suas características e traços únicos, o que nos interessa aqui nesse texto é deixar sobressalente o seu traço incomparável aos seus contemporâneos, a necessidade da poesia como sentido de vida como ela própria afirma. E assim, demonstrar o porquê dessa artista ser especial. Muitos ensaios Pizarnik dedicou aos autores citados anteriormente, o que nos leva a reconhecer seu ótimo caráter de investigadora.

Pizarnik e seu protetor: Julio Cortázar

Em seus poemas, isso também é observado, já que a escritora não aparenta não conseguir se diferenciar da sua pessoa em realidade no momento em que escreve seus poemas, o que vemos como uma constante análise pessoal. Os que primeiro entram em contato com a sua obra, percebem que essa se encaixa no terreno das escritoras que escrevem para continuar vivendo, que possuem um tom confessional como é o caso de Anne Sexton e Sylvia Plath, para citar exemplos. Pizarnik usa a poesia de escudo frente aos seus demônios e a inconfortabilidade perante o processo de viver. Romântica e expressiva, ergue sua arte em cima de uma autobiografia que advém de quem busca sobreviver.

Pretendemos nesse ensaio então, apresentar e travar algumas considerações sobre sua obra poética tão desregrada do seu meio, tendo como exemplo o poema O Despertar (As aventuras perdidas, 1958), que nos ressoa as principais características da obra da poetisa.

Entendemos que esse poema é um referencial de grande relevância para seu conjunto de obra, por possuir elementos inconfundíveis e hereditários do restante de seus poemas. Aqui estão expressos a sempre presente morte (citada mais de uma vez sem medo de ser repititiva), e o desconforto, emanados ao longo de um texto que parece ser um grito último.

O Despertar é construído em forma de desabafo e prece, mais formal do que seus outros confessionais, esse realmente parece estar se dirigindo para alguém em um confessionário, já que, utiliza a expressão “senhor”, repetidas vezes em forma de prece, que pelo seu ritmo, podemos associar até a uma oração. Fazendo parte da leva de seus poemas longos, em O Despertar estão presentes vários temas como infância, memória, vida adulta, insegurança.

Carta de Pizarnik para os amigos Aurora e Cortázar

Porém, todos eles estão entrelaçados e obedecem a lógica da metáfora principal: “A gaiola se tornou pássaro e voou”. Entendemos isso como o episódio que finda todas sua proteções diante a vida, essa que encontra-se a mercê das piores ocorrências como a insegurança, a inexatidão, o não-saber. É a mensagem chefe que embala o restante do poema. Vemos que o eu-lírico nos relata, nessa sua conversa com um ser-sobrenatural, que está em crise com o mundo e suas sensações, demonstrando sua inabilidade em conviver nas suas estruturas, um não pertencimento. A morte, então, seria a solução prevista por ele.

Percebemos que a o sofrimento desse despertar, essa quebra com o contrato de negar realidades da vida, se dá no nível psíquico e no físico. Pizarnik, tal como outras poetisas com a brasileira Hilda Hilst, cita demasiadamente o corpo como recurso poético, seja por uma metomínia ou uma mera metáfora. O que aproxima ambas é o uso do carnal (olhos, mãos, sangue, lábios, ...) como meio de fazer imagens associado ao primitivo (sexo, morte) e ao trágico, tal como, instrumento de dor. Pizarnik busca o impacto máximo com seus conjuntos de palavras como ferrolho nos lábios, extraio as minhas veias, tentando transpor ao leitor sensação semelhante de agressão. O seu corpo não é somente instrumento criador de imagens, mas também, testemunha de seu sofrimento, e até mais, facilidade para esse. Até porque, o problema incide em ser mortal.

A sua semântica frasal por vezes é hermética e até fantástica, mas sempre mantendo a elevação da intensidade. Pizarnik faz uso da caneta-sangue, escrita de impulso e salvamento, encharcada e possibilidades sensoriais, interessada em conduzir estados de estar no seu receptor, de ocasionar o oposto que realiza com seus poemas: ao invés de descarregar o sofrimento com palavras, fazer das palavras, transporte de sensações de espírito para seu leitor.

Esse romantismo obscuro gera um texto difícil de ser entendido de uma só vez. Pizarnik exige uma leitura vagarosa, que respeita os silêncios exigidos pelo poema. Em meio ao seu verso livre, que constrói um discurso lógico, encontramos aliterações, jogos verbais, catacreses, anáforas e tantos outros fenômenos que no caso desse poema, nos presenteia com um ritmo sombrio e uma melodia, que através de seus elementos consecutivos e delicados suaviza e respeita o significado das palavras que carrega. Há uma transparência assustadora em seus versos.

Retrato da poeta feita pela amiga íntima Silvina Ocampo

Essa sinceridade de mostrar seus medos nus tanto de esconderijos quanto de soluções é uma característica que se sobressai numa primeira vista. É de uma estranha coragem, demonstrar o pavor e a proximidade da morte. Identificamos que Pizarnik consegue trabalhar muito bem com a emoção, filtrando-a segundo os moldes poéticos escolhidos, mas sem a tirar a sensação de desafogamento, imediatismo, intensidade.

O Despertar é um exemplar chave no conjunto da poetisa não só por ser tão vasto e dar tantas pistas sobre sua personalidade e estilo, mas parece ser ele o gestante do resto da sua obra, claro, que tirando os exemplares mais irônicos, ainda que assim, melancólicos. Aqui estão presentes palavras tais como luz, sangue, sombra, vazio, noite , fim - matérias-primas, vocabulário básico de onde se amparam seus outros poemas. Além disso, a palavra pássaro parece no imaginário pizarkiano ocupar também um importante lugar, já que aparece também em outras obras.

Quando as tristezas viram poemas

Sabemos que a poetisa e ensaísta teve sempre presente na sua vida duras crises de depressão, sendo que a última foi fatal, tirando sua vida aos 36 anos. Mas vale dize que não consiste só nisso a sua arte. A poetisa é capaz de belos exemplares cômicos e breves, nem por isso pessimistas como: Não, as palavras/não fazem amor/fazem ausência/Se digo água, beberei?/Se digo pão, comerei?

Pizarnik foi uma figura importante de sua época, e para nós atualmente, representa uma poesia sensível e extremamente dedicada, capaz de recursos poéticos imaginativos, com uma lógica própria, muito curiosa, digna de admiração. O que levamos dela, é a sua capacidade de se manter tão aberta a poesia, e também, o mérito de conseguir transformar seu universo sensível e a própria vida em uma obra duradoura e representativa. São essas “veias extraídas na qual são feitas escadas à noite” que resultam os seus poemas – essas provas de humanidade.

O Letrismo/Situacionismo de Gil J. Wolman

excerto de O Mito fílmico de Guy Debord, por Juliana Szabluk

Para os letristas*, a criatividade humana é a principal motivação do homem: o foco sócio-político seria natimorto se o agente da mudança não tivesse um espírito livre e criativo. A paixão pela totalidade da vida seria a motivação maior que faria o homem ampliar seu espírito para a construção do cotidiano.

Isidore Isou, criador do Letrismo, se embasou no poeta Lautréamont (Isidore Ducasse) para construir sua Arte Supertemporal, em que o público tem participação ativa como criador e interventor. O conceito de criação, aqui, vai além do processo do produzir arte e abrange todas as esferas do conhecimento, sendo a criação a causa máxima para impulsionar o homem à consciente necessidade de ultrapassar a beleza e liberdade artística e transpô-la à vida:

o motor da evolução social não foi o instinto de sobrevivência, mas sim a vontade de criar. Por meio da vontade de criação, o artista foi da infantil existência inconsciente para a eternidade do construir uma história consciente.

Isou, em sua análise sistemática da arte, percebeu um padrão na história da arte constituído por dois movimentos complementares: as fases de ampliação (amplique) e de cinzelamento (ciselant). A ampliação e o cinzelamento são a perfeita sistematização dos processos de vida e morte das disciplinas e movimentos da arte. Analisando não apenas a arte, mas como todos os sistemas de linguagem humanos, Isou percebe que a letra é a mais rica das partículas constitutivas destes sistemas, por ser o denominador comum a todas as linguagens. Assim, Isou parte em busca do enriquecimento da letra, a única saída para reunir o que foi separado – o homem de sua linguagem e a linguagem de si mesma para retomar a comunicação humana verdadeira, além diálogo, além discurso. Por definição, temos:

- Ampliação: qualidade da lei estética, o enriquecimento do elemento e das combinações estilísticas.
- Cinzelamento: qualidade da lei estética, a destruição do elemento e das combinações estilísticas.

O cinzelamento unido à ampliação resultaria na Lei estética das duas hipóteses:

Qualquer expressão estética é constituída por dois movimentos que se seguem de forma irreversível. Um descobre, primeiramente, o enriquecimento do elemento e das combinações estéticas, e, então, o exame deste elemento até chegar à sua destruição.


Isou propõe que esta alternância se iniciou na ampliação da poesia ocidental com Homero e foi até Vitor Hugo. A primeira fase cinzelante de destruição é inaugurada com Baudelaire e sua crítica radical ao desligamento da poesia e da linguagem, em sua busca para reunir o mundo moderno, a imagem e as palavras em uma nova estrutura poética ligada com a verdade humana. A destruição, nos termos de Isou, ao contrário da negação Dadá, é um caminho para a expansão e para a utilização positiva e prática das partículas existentes, que segue um longo movimento de redução em busca da pureza.

Passando da evolução espiritual, a linguagem rumaria ao cinzelamento de seus meios materiais. Em sua procura pelo perfeito equilíbrio entre as possibilidades da linguagem, a narrativa perde seus excessos, chega à anedota e prossegue até o verso. A exploração da forma reconhece o poder da palavra tanto como significado quanto como imagem. Potencializada, a palavra pode construir metáforas, criar novas formas e dominar a página. A evolução das partículas constitutivas, portanto, era a desconstrução material da própria linguagem. Baudelaire ultrapassa a anedota, a reduz, e chega à poesia, que se destrói nos versos de Verlaine. O verso ruma às palavras de Rimbaud, vai das palavras aos padrões de som e espaço de Mallarmé e, finalmente, ao nada sem sentido de Tzara.

Para Isou, a Lei das Duas Hipóteses ocorre em todos os domínios, que vinham se "destruindo" (se reduzindo à sua pureza) em suas fases de cinzelamento até chegarem, simultaneamente, em uma etapa que exigia a ampliação. Das dezenas de campos analisados por Isou, apontamos o que ele considera o ponto máximo do cinzelamento em alguns nomes:

* filosofia de Heidegger
* a fotografia de Man Ray
* a arquitetura de Le Corbusier
* o teatro de Pirandello
* o romance de Joyce
* as ideias sobre economia de Paul Goodman
* o cinema de Jean Cocteau
* os quarks de Murray Freezing-Mann

Nem a figura de Deus escapou da lei de Isou. Deus, como um modelo externo de poder e de existência plena, iniciou sua ampliação em Feuerbach e foi até o proletário de Marx, Engels e Lênin. Em suma, tudo aquilo que constitui a humanidade enquanto tal havia chegado ao seu limite.

Para Isou, este limite correspondia a uma harmonia monótona e falta de espaço para o prosseguimento da expansão, que impossibilitava qualquer inovação criativa. O conjunto era tão aceito em seu resultado final, que se desligava da exploração dos próprios elementos que o compunham.

No caso do cinema, a relação imagem-som, estabelecida como a definição da sétima arte em si, se expandia no sentido de criar mais e mais coesão entre estes dois elementos. A busca pela expansão do conceito final deixava de lado a riqueza que cada elemento possuía separadamente dentro do próprio filme.

O cinema, no estado que se encontrava, já nascia repleto de pré-definições, de poucos caminhos a seguir limitados pela própria pobreza de seus componentes e aceitação dos criadores. Porém, após a ampliação total e a autonomia de cada elemento, as possibilidades de criação seriam ilimitadas. Som, imagem, tempo, enquadramento – até o espectador, que se resumia a assistir –, alcançariam uma autonomia tamanha, que adquiririam, em si, a riqueza do próprio filme. Reunidos novamente e coexistindo na tela, os elementos expandidos dariam origem à Arte Infinitesimal (Art Infinitésimal) ou à ciência do Esthapéïrisme, do grego esth: estética, e apéiros: inumerável ou infinito.

Em máxima instância, a busca de Isou, ainda muito ligada aos ideais surrealistas e das vanguardas anteriores, é aquela que, coerentemente, critica o plano de Breton negativamente e o ultrapassa positivamente: cria a estratégia para realização do sonho concreto e real. Para alcançar a liberdade humana primeira, estando esta frente à racionalidade estratégica do sistema, seria necessária, num momento inicial, a destruição do próprio objetivo e o início da construção consciente da nova linguagem.

Esta linguagem tão rica seria, simultânea e inseparavelmente, a causa original de um profundo questionamento e a forma pela qual este questionamento se expressa: seria objeto e ato, produção e processo, signo e base para significação, seria a coisa em si e aquilo que está se tornando. Se a arte estava separada dos sonhos e demônios mais silenciosos e indizíveis do homem, a linguagem seria a primeira causa da prisão humana: a primeira separação ordenada de algo selvagem e livre por essência.

Assista ao vídeo O Anticonceito, de Gil J. Wolman (legendas inéditas em português: tradução e sincronia por ju-sza)

JULIANA SZABLUK

A Paixão Selvagem (Je t’aime moi non plus)


Je t’aime moi non plus é um filme do diretor Serge Gainsbourg, lançado em 1976. Sim, isso mesmo, diretor. A ideia também não é tão surpreendente. Gainsbourg era um artista no seu estado natural, a procura de vias estuárias para sua expressão. Quem conhece sua obra, sabe como é impossível classificá-lo, dado aos seus experimentalismo e aventurismos musicais. A saber, quando petit, o menino sonhava em ser artista plástico, chegando até a estudar artes , função na qual se dava muito bem. A música veio pela necessidade de ganhar dinheiro, e o dom, veio de família. Seu pai era pianista e desde cedo o ensinava (o termo melhor seria obrigava) a ser um músico exemplar. O que cedo lhe causou uma certa repulsão, o talhou mais tarde como esse conhecidíssimo, e por que não dizer genial, artista europeu.

Voltaremos ao filme. Je t’aime moi non plus a saber é o nome da sua música mais famosa, gravada com Brigitte Bardot e Jane Birkin. A última, foi sua mulher e atriz no filme com mesmo nome. Birkin, figura de peso na vida do artista, era uma atriz inglesa, que já tinha tido uma certa visibilidade com sua atuação em Blow Up (Depois daquele beijo), filme do diretor Michelangelo Antonioni de 1966. Com ela que Gainsbourg teve sua única filha, a atriz e também cantora, Charlotte Gainsbourg.





Quando lançado o filme, gerou-se um estado de polêmica impressionante, que abalou muito o casal. A saber, Jane que era uma atriz em ascendência, ficou anos sem ter um bom trabalho, e Serge, se encontrou arrasado imageticamente. Fazer esse filme era um desejo longo dele, sendo pensado e repensado exaustivamente. O roteiro, a fotografia, cada plano é notavelmente diferenciado, tendo um estudo gaisbourgniano por trás, tanto é, que podemos dizer que o corpo físico do filme é tão elaborado que chama mais atenção que a construção de seus personagens. Temos a impressão de um intenso planejamento. Cada cena é vista como um quadro, (no sentido plástico e não cinematográfico) onde a composição dos objetos às vezes desrealça o sentimento em jogo.


Resumindo, A Paixão Selvagem é a história de um caminhoneiro, cujo nome é Krassky (Joe Dallesandro), que trabalha descarregando lixo em um aterro, em uma paisagem árida, vazia e desesperadora. Junto dele está Padovan (Hugues Quester). A relação entre ambos se extende além do trabalho, os dois estão dividindo uma intensa paixão um pelo outro. Fortes e recheados de elementos machistas, Padovan é a fotocópia de um ser sem razão, enquanto Krassky, possui o poder das situações. O espectador se divide entre onde está o amor entre esses homens, ou como esses seres brutos e descontrolados podem ter tal sentimento, e a necessidade do sexo somente. A relação entre os dois muda quando eles entram em uma lancheria à beira de estrada. Lá Krassky é atendido por uma figura dúbia e imcompreensível, Johnny (Jane Birkin). Ela é a garçonete que vai fazer a ligação entre os dois homens se distanciar.

Birkin está litaralmente vestida de meninho. Cabelo curto, olhos caídos, calça jeans e a ausência de sutiãs intrigam Krassky que imediatamente se torna obsessivo por ela, mas pelo que ela aparenta, ou seja, sua masculinidade. Começam então a ter vários encontros virtuosos.

O filme a partir daí, se resumi ao seus momentos sexuais, onde Krassky a trata como um homem, sempre a possuindo pelo sexo anal, no qual ela apesar de sofrer, entende pelo amor que sente por ele, que ao seu ver, é a única chance de salvação em meio aquele deserto de impossibilidades interiorano.


Sr. Gainsourg não conhece a manteiga?


Quando lançado, além de gerar um tumulto de ojeriza pelos seus personagens controversos, suas cenas impactantes, um dos críticos chegou a comentar a seguinte frase: "O sr. Gainsbourg não sabe que existe a manteiga?". A expressão é uma referência ao filme O Útimo Tango em Paris, em que Marlon Brando e Maria Schneider usam a manteiga como lubrificante nas cenas de amor do filme. O desastre cinematográfico só provou o quanto avante e iconoclasta Gainsbourg era, a ponto de perceber todo falso liberalismo que os anos pós-68/69 pregavam mas não nos seus limites. As suas visões das posssibilidades e amar e se relacionar não se enquadravam no seu tempo e talvez nem sejem aturados no nosso.

Paixão Selvagem continua sendo uma obra a frente da nossa visão atual, difícil de compreender numa anormalidade que é recepcionada como agressão justamente pela nossa falta de capacidade de lidar com o tema que ele propõe. É possivel para alguns espectadores que o peso das suas cenas só existam com o intuito de chocar o físico, de mostrar pura promiscuidades. Mas o que o diretor/artista plástico/músico nos mostra é que ainda não estamos prontos para qualquer tipo de empatia e possiblidades do amor, de explorar as barreiras humanas. É incrível como uma história aparentemente simplista pode desmenbrar nosso tabuleiro social. A respeito das escolhas estéticas de Serge, é uma pena que esse seja seu único filme. Seu conhecimento artistico colaborou muito para o seu domínio da linguaem cinematográfica. Não diria que é uma película genial, mas é necessário e incrível vindo do terreno de onde veio.


Curiosidades

Em uma entrevista para TV no mesmo ano do lançamento do filme, Truffaut disse quando estava no ar: "Nem se incomodem de ir ver meu filme. Vão ver o do mounsier Gainsbourg, esse sim é uma obra de arte". Foi uma bandeira salva-vida, uma das poucas críticas positivas no período.

Charlotte, a filha do cantor, viu o filme recentemente e declamou que foi uma das coisas mais lindas que já viu. Afirma também, ter chorado muito.

A obra é dedicada ao trompetista Boris Viran, amigo de Gainsbourg e conhecido no círculo existencialista de Montparnasse onde circulavam Juliette Gréco, Sartre, Beauvoir....

Recentemente foi lançado um filme sobre a carreira do cantor. Se chama La vie Heroïque. Feito pela Universal, mostra pinçadas de sua vida, sempre fumando seus inconfundíveis Gitanes e na companhia de mulheres bonitas como Gréco, Bardot, Birkin, Anna Karina (que não aparece no filme mas merece ser mencionada aqui), entre outras. A obra teatralizada parece uma destruição de humanidade do artista para elevação de ícone pop, exaltando mais seu teor cafageste e malandro do que a fidelidade de seu roteiro de vida.

Tirando o fato de não ter conseguido ver o filme até o final, com certos espamos de irritação, o filme vale pela maquiagem. Não está tão ruim assim.


NATHALIA RECH

Seleção: escritores-roteiristas

Uma pequena seleção para nossos amigos leitores, de escritores que além da literatura também ajudaram a conceber a história da cinematografia mundial.


1. Marguerite Duras



Marguerite Duras (1914-1996) era escritora e diretora de filmes, além de ter assinado o roteiro do clássico da Nouvelle Vague, Hiroshima, Mon Amour, de Alain Resnais. Entre seus livros de destaque estáo O Amante (adaptado para o cinema com seu roteiro em 1992 por Jean-Jacques Annaud) e A Dor. Sua escrita está associada ao Nouveau Roman, o novo romance francês, que era inspirado no cinema e no existencialismo. Como diretora, fez 19 filmes, como India Song.

Duras merece o primeiro lugar por fazer colaborar com todos esses clássicos citados, estilos únicos na arte da escrita e do cinema, e além disso, ser uma teórica, pensante da sétima arte.

Frase: "Como eu tenho uma espécie de desgosto em relação ao cinema que tem sido feito, enfim, da maior parte do cinema que tem sido feito, eu queria retomar o cinema do zero, numa gramática bem primitiva… bem simples, bem primária: recomeçar tudo."

2. Alain Robbe-Grillet


Alain Robbe-Grillet (1922-2008) era escritor e foi também cineasta. Foi praticamente o fundador do Nouveau Roman, nova novela, citado acima, onde dentre Duras, figura também Nathalie Sarraute. Ele foi o autor do manifesto Por Uma Novela, onde na tentativa de revolucionar a forma de narrar, características naturalistas ou o texto Balzaquiano descritivos são descartados a favor do fluxo de consciência, interiorização do personagem. Também deixou sua marca na Nouvelle Vague, foi o roteirista de O Ano Passado em Marienbad, filme também de Renais. Escreveu 12 romances, entre eles A Espreita e O Ciúme, e dirigiu dez filmes.

Pela sua atitude de transgressão e renovação, seja em qual for a plataforma, e sua atitude de arte ante mesmo à compreensão, Grillet ganha a segunda posição.

Frase: "Eu escrevo para saber porque escrevo."


3. Jacques Prévert


Jacques Prévert (1900 - 1977), diferente de Duras e Grillet, era um poeta em primeiro lugar e depois um contador. Em 1925, participou do Surrealismo, apesar de não se fixar nele totalmente. Após o lançamento de Paroles, sua primeira coletânea de escritos, atingiu um certo público com seu humor e irreverência. O ele o grande ironizador dos costumes, aspecto saliente na maioria dos roteiros que escreveu, pertencentes ao Realismo Poético Frances. Escreveu o roteiro de 56 filmes, entre eles Jenny e Crime do Sr. Lounge. Suas principais parcerias foram Jean Renoir e Marcel Carné. Também colaborou como compositor, Serge Gainsbourg, músico francês, escreveu Les Feullies Morts em sua homenagem. Publicou em torno de 20 livros.

Pela contribuição com o realismo e não somente, esse poeta da vertente surrealista foi um grande conhecedor da sociedade de sua época, com um estilo único e revolucionário na poética escrita. Prévert fica no nosso terceiro lugar.

Frase: "Não deviam deixar os intelectuais brincar com fósforos."


NATHALIA RECH